A Justiça de Franca tornou réu o médico oftalmologista Luiz Antônio Santana de Figueiredo, de 80 anos, pela acusação de estupro de vulnerável contra uma menina que era enteada do filho dele.
Ele teria abusado de uma menina de 6 anos, em 2016, porém, a denúncia foi formalizada há dois anos atrás quando a avó paterna da vítima— hoje com 16 anos—, após se inteirar dos fatos pela própria adolescente, decidiu registrar boletim de ocorrência e recorrer ao Ministério Público para que o caso fosse investigado.
O inquérito policial, com mais de 108 páginas, foi aberto pela delegada Juliana Paiva, na Delegacia de Defesa da Mulher de Franca.
O caso foi noticiado, com exclusividade, no Programa do Dedão, na rádio FNT, e no portal FNT, nos dias 23 e 24 de setembro de 2024, respectivamente.
O abuso sexual a que foi submetida deixou a adolescente transtornada, a ponto de se tornar arredia a toques e abraços masculinos, inclusive do seu próprio pai, só usar a cor preta, ter crises de ansiedade constantemente, e mudança brusca de comportamento.
Somente após um longo período de tratamento com psicóloga, a adolescente conseguiu relatar de próprio punho e no computador todo o drama que sofreu, a sua avó paterna, que tem a sua guarda. Ela também teria contado o ocorrido à sua mãe, ao avô materno, que a criou desde os 2 anos de idade, quando seu pai se separou de sua mãe. O padrasto e a namorada dele também souberam do caso.
COMO FOI
Em seu relato à avó paterna, que é advogada, e com quem reside desde março de 2024, a adolescente disse que à época dos fatos, em 2016, ela ainda morava com a mãe e o padrasto. Ela ficava bastante tempo na chácara do filho do médico, no Jardim Zanetti, e sempre brincava na casa de baixo, onde o acusado ficava.
Desde aquela época ela tinha ouvido muitas coisas estranhas sobre ele, soube que até uma moça que trabalhava na chácara saiu por conta de comentários dele, falando sobre o corpo dela. Mas não era só com a babá. Ele fazia muitos comentários sobre o seu corpo e perguntando coisas estranhas a uma criança, do tipo ‘Você já está usando sutiã? Qual o tamanho do seu sutiã?’, teria perguntado o médico.
A adolescente relatou também que o acusado, a quem considerava como seu avô, passava a mão em suas pernas, prestava atenção em seus seios e gostava que ela sentasse no seu colo.
Mas o pior estava por vir.
Numa noite, num fim de semana na chácara, aconteceu. Ela relatou que a sua mãe devia ter saído, a então criança estava na casa de cima com os pais do seu padrasto. Ela saiu da sala em que estava brincando ou vendo algum desenho infantil na televisão e foi para o quarto do médico. A menina ia lá normalmente e se deitava na cama.
Naquela noite não foi diferente. “Me deitei lá. Lembro que o velho estava vendo um jogo de futebol na televisão e a mulher dele ainda estava fora do quarto. Me deitei lá e fiquei com ele vendo televisão, entediada”.
Em dado momento, o médico colocou a mão na sua perna e começou a ir mais fundo, deixando a menina paralisada. Em seguida, o acusado teria colocado a mão por dentro da calça e da calcinha dela, tocando em suas partes íntimas.
Até a esposa dele entrar no quarto e ele parar. Mas logo depois, ele puxou a coberta e colocou sobre a criança, continuou a acaricia-la, até ela tomar coragem e sair correndo do quarto.
Coragem para contar
O tempo passou e somente quando já estava com idade para entender tudo o que aconteceu, a adolescente decidiu contar à sua avó materna, com quem morava. Nem em sua mãe ela confiava em contar. Tanto que quando ficou sabendo, a mãe se limitou a xingar o médico e pediu a adolescente que não contasse nada à avó paterna. “ Me acusaram dizendo que tentava chamar a atenção e era drama, passei a ficar mais longe depois disso”.
Assim que foi morar com a avó paterna, sob a sua guarda, a adolescente, depois de um tratamento psicológico, decidiu escrever de próprio punho e também no computador para contar a avó paterna o seu drama.
Indignada e revoltada com os fatos relatados por sua neta, a advogada reuniu provas, farta documentação e foi ao Ministério Público de Caçador (SC) solicitando a abertura de inquérito policial na DDM de Franca.
A delegada Juliana Paiva atendeu a solicitação do promotor de Justiça Claudemir Aparecido de Oliveira, de Franca, e, por determinação do delegado seccional de Polícia de Franca, Wanir José da Silveira Junior, instaurou o inquérito policial e o remeteu ao Fórum de Franca, porém, sem as oitivas da adolescente e de sua avó paterna. Diante disto o inquérito voltou para a DDM, onde ficou até a fase de conclusão.
Médico nega
Em depoimento na DDM no dia 29 de agosto de 2024, o médico Luiz Antônio Santana de Figueiredo negou ter cometido abuso sexual contra a adolescente. Ele disse ter ficado surpreso com a acusação, que ia a chácara em alguns finais de semana, sempre acompanhado de sua esposa, com quem está casado a mais de 50 anos, e que o tratamento dado a adolescente é igual a todos os seus netos.
O médico disse ainda que não se recordava de a menina ter ficado contigo em seu quarto na chácara, que as portas e janelas sempre ficavam abertas, possibilitando visibilidade a quem estivesse do lado de fora.
Segundo o médico, as crianças tem o costume de ficar em uma sala com televisão assistindo Netflix, programação a qual não tem acesso, preferindo a leitura.
O acusado disse também nunca ter feito comentários sobre o corpo de ninguém e muito menos sobre o corpo de qualquer funcionária que tenha trabalhado na chácara.
Sobre a denúncia de que gostava que a menina ficasse no seu colo, o médico disse que tem prótese no quadril e cirurgia no joelho, o que o impossibilita de pegar peso ou qualquer criança no colo.
Por fim, o perito disse que tem 50 anos de medicina, cem mil fichas de atendimento de crianças a idosos e nunca teve queixa em relação ao seu trabalho ou vida pessoal. O médico disse também que atende creches, APAE, e toda vez que atende a uma criança solicita sempre o acompanhamento de um responsável, e que quando a mãe não está presente pede a sua secretária que o acompanhe.
Pai quer justiça
Em entrevista ao repórter Alexandre Silva, da rádio e portal FNT, em setembro de 2024, o pai da adolescente, um empresário de 44 anos, disse ter ficado estarrecido com a narrativa de sua filha e que faria de tudo para que a justiça seja feita e que o médico pague pelo crime cometido.

“Meu objetivo é que com a divulgação deste caso, outras prováveis vítimas deste monstro o denunciem para que ele vá para a cadeia”. OUÇA:
O que diz o Ministério Público
O Ministério Público sustenta que os abusos começaram com comentários inapropriados do médico sobre o corpo da criança, especialmente sobre o tamanho dos seios.
De acordo com o Ministério Público, apesar de não ter discernimento dos atos praticados pelo médico na época, a criança conseguiu se lembrar das práticas e descrevê-las às autoridades durante a investigação.
Ao tornar o médico réu, a Justiça considerou a suspeita de estupro de vulnerável, com agravantes de abuso de confiança e crime continuado.
A defesa de Luiz Antônio preferiu não comentar o assunto.



