A cidade de Franca (SP), com cerca de 352.536 habitantes, está no cerne de um desafio enfrentado por muitos municípios brasileiros: como transformar a ambição de crescimento numa trajetória sustentável, que une economia, meio ambiente e bem‐estar social.
Inspirada pela agenda global da ONU — os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) — e pelo reconhecimento de que os municípios são o palco central da transformação, a cidade identifica quatro grandes obstáculos: desigualdade social, escassez de recursos financeiros, falta de planejamento estratégico e desmobilização social.
É nesse cenário que o funcionamento de uma agenda coletiva — envolvendo poder público, universidades, setor produtivo e sociedade civil — se torna essencial.
Dados que apontam caminhos

Saneamento e resíduos
- Franca registra atendimento de 96,95% da população para abastecimento de água, e 96,27% para esgotamento sanitário, conforme aponta IAS – Instituto Água e Saneamento.
- A cobertura de coleta de resíduos domiciliares atinge 98,24% da população — porém, apenas 0,67% desses resíduos são recuperados hoje.
- A prefeitura disponibiliza quatro Ecopontos para recebimento gratuito de recicláveis, construção civil, móveis e outros resíduos, e um serviço de recolha agendada de inservíveis que, em 2025, já recolheu mais de 45 toneladas de materiais.
Governança e mobilização
- O município conta com plano municipal de saneamento e ações de educação ambiental em curso, ainda que com recursos humanos e financeiros restritos.
- Em outubro de 2025, a câmara municipal aprovou a criação de uma frente parlamentar para fiscalização da limpeza urbana e do manejo de resíduos sólidos.
Estas informações revelam: avançamos, mas há lacunas — especialmente no campo da recuperação de resíduos e na mobilização social visando a transformação dos comportamentos e da cultura urbana.
Um plano de ação para curto, médio e longo prazo
A proposta do Fórum Franca Sustentável é emblemática:
- Curto prazo (trienal): consolidar diagnóstico, mobilizar grupos de trabalho e aumentar participação cidadã.
- Médio prazo (2030): atingir metas claras rumo aos ODS, como aumento da taxa de reciclagem, ampliação de áreas verdes, melhoria da educação e inclusão social.
- Longo prazo (2050): construir uma cidade resiliente, adaptada às novas realidades climáticas, com economia circular madura e qualidade de vida elevada.
Os quatro eixos temáticos — Pessoas (Desenvolvimento Social), Prosperidade (Desenvolvimento Econômico), Urbano & Meio Ambiente, e Instituições — e os nove Grupos de Trabalho (GTs) que os desdobram, formam a espinha dorsal do planejamento participativo, o que tem pela frente para o Fórum trabalhar, mobilizar e transformar a realidade do nosso município.
No eixo ambiental, Franca já disponibiliza o aplicativo EcoFranca para denúncias de descarte irregular, desenvolvido em parceria com a universidade local, conforme aponta o portal oficial da Prefeitura Municipal de Franca.
A política de resíduos distingue tipos de materiais e oferece pontos de coleta específicos: por exemplo, Ecopontos para recicláveis, construção civil, pneus, óleo de cozinha usado, entre outros.
Em termos de mobilização, o serviço de Recolha Agendada permitiu que em 2025 mais de 45 toneladas de materiais inservíveis fossem recolhidas no município, evitando descarte irregular.
Apesar do serviço, a recuperação de resíduos recicláveis em Franca é extremamente baixa (0,67 %), o que indica necessidade urgente de ampliar a logística de coleta, educação cidadã e incentivos à economia circular.
O financiamento e a governança devem estar alinhados a fim de planejar para 2030 e 2050, o que se exige orçamento contínuo, metas claras, monitoramento e revisão periódica.
A mobilização social ainda está aquém, como aponta o texto-base do Fórum Franca Sustentável, pois a sociedade civil, as universidades, as empresas e os movimentos sociais precisam estar integrados ao processo, e não apenas atores consultivos.
E a dimensão econômica merece atenção: para que o crescimento da cidade seja sustentável, e para isso, deve-se apoiar em inovação, inclusão social e baixos impactos ambientais.
Diante disso, houve ontem, dia 5 de novembro de 2025, na Câmara Municipal de Franca, mais uma edição do Fórum Franca Sustentável, como um espaço de diálogo e construção coletiva sobre o futuro ambiental da nossa cidade. Foram discutidas ações, políticas e iniciativas que fortalecem o compromisso de Franca com o desenvolvimento sustentável e a preservação dos recursos naturais. E a proposta foi pensar em soluções que integrem crescimento econômico, inclusão social e preservação ambiental, com foco em qualidade de vida para as próximas gerações. A iniciativa do Fórum teve um Conselho Gestor composto pelas instituições que o criaram, que são: UNESP, UNIFACEF, UNIFRAN, FDF e ACIF.
Para que “Franca Sustentável” não seja apenas um slogan, há uma proposta do Fórum de um conjunto de iniciativas plausíveis e concretas, que são:
- Criar e acompanhar indicadores locais ligados aos ODS (ex: taxa de reciclagem, percentual de escolarização, renda média, áreas verdes por habitante);
- Mobilizar empresas locais para aderir ao compromisso da economia circular, especialmente no setor calçadista tradicional da cidade;
- Ampliar a educação ambiental desde a infância — escolas, universidades e comunidade que devem incorporar o tema de forma contínua;
- Promover transparência e participação: audiência pública anual dos GTs (Grupos de Trabalho), plataforma web de consulta à comunidade, relatórios públicos de progresso;
- Pensar a cidade para 2050 — não apenas “o que fazemos até 2030”, mas “que cidade queremos deixar para nossos filhos e netos”

Conclusão
Assim, Franca tem base, vontade e estrutura para ser uma cidade‐referência de desenvolvimento sustentável no interior paulista. A agenda global dos 17 ODS servem como bússola — mas o verdadeiro diferencial será a capacidade de traduzir essa agenda em planejamento local, mobilização coletiva e práticas concretas.
Se o Fórum Franca Sustentável reunir pessoas, ideias e ações alinhadas, veremos não apenas uma Franca maior — mas uma Franca melhor. Com certeza, Franca pode e poderá colaborar o que está sendo debatido e articulado no COP30 em Belém, Pará, e que muitos esforços precisam para reverter as questões das mudanças climáticas e estimular uma cultura de sustentabilidade para nossa sociedade.
Lúcio Rangel Ortiz, advogado, professor mestre em Planejamento e Análise de Políticas Públicas e pesquisador (UNESP), MBA em Gestão de Projetos e parecerista da Revista Digital de Direito Administrativo (USP), pós-graduado em gestão pública (UFSCar), escritor, palestrante, membro do Fórum Franca Sustentável e colunista do Portal Fato do Ato – Intelecto Saber.


