
A crítica é, antes de tudo, o instrumento mais sofisticado do conhecimento humano. É por meio dela que a inteligência busca compreender o ser no universo, orientada pela razão e pela incessante procura da verdade.
E aqui reside o cerne de toda reflexão filosófica: o que é, afinal, a verdade?
A verdade para o ser humano é uma eterna busca e as respostas variadas possíveis, por muito tempo, baseavam-se em mitos, crenças sem provas e evidências, senso comum, intuição, adivinhações, e o pior de todas as formas, que acontece nos dias de hoje é “eu acho que é” (o denominado “achismo” de se considerar o dono da verdade somente de modo opinativo por causa de que viu no whatsapp, Tik Tok, Facebook, Youtube, ou algo assim parecido).
Desde a Antiguidade, a verdade tem sido o horizonte da razão. Quando o conhecimento se afirma como absoluto e incontestável, nasce o dogmatismo – corrente filosófica que reconhece na verdade um ponto fixo e inabalável. Aristóteles e Tomás de Aquino são dois dos grandes representantes dessa postura intelectual. No extremo oposto, o ceticismo questiona a própria possibilidade de conhecer. Para o cético, toda certeza é provisória; o saber é uma construção frágil diante da imensidão do desconhecido. Um pensador que se delineou assim foi René Descartes, que duvidou de tudo, até ter certeza do próprio pensamento indubitável da própria existência por pensar (“Penso, logo existo!”)
Entre a certeza dogmática e a dúvida cética, ergue-se o vasto campo da crítica. E é nesse terreno que florescem as grandes tradições filosóficas: o idealismo, que em Platão, Kant, Hegel e Croce vê nas ideias o plano supremo da verdade; o materialismo, de Marx e Engels, que enraíza a verdade na concretude histórica e nas condições materiais da existência; e o realismo crítico, que busca conciliar pensamento e realidade, e admite a interação entre o mundo das ideias e o mundo sensível, como defende Roy Bhaskar e Andrew Collier.
A crítica, portanto, não é mera negação. É o fundamento do próprio ato de conhecer. É através dela que a ciência e a metafísica se estruturam, e transformam a dúvida em reflexão e a reflexão em método. A filosofia, ao investigar os critérios do saber (a criteriologia), a origem do conhecimento (epistemologia) e sua natureza (gnoseologia), transforma a crítica em caminho para o aperfeiçoamento da razão.
Refletir é duvidar para compreender. A dúvida, longe de ser fraqueza ou somente incertezas, é o motor do pensamento. É ela que separa a “verdade popular” – aquela aceita sem questionamento – da “verdade filosófica” e da “verdade científica”, que resultam do exame rigoroso da realidade. O princípio da contradição, base da dialética, faz a crítica funcionar como o filtro que depura o conhecimento, o que distingue o que é universal do que é apenas aparência.
A ciência nasce desse espírito crítico. Seu método – observação, formulação de hipóteses, experimentação, generalização e elaboração de teorias – é uma formalização do processo reflexivo humano. De Newton a Einstein, a crítica foi o instrumento que permitiu transformar a curiosidade em lei, e a dúvida em certeza mensurável.
A crítica mostra o caminho criterioso da busca da verdade. A consciência crítica é a capacidade intelectual de observar a verdade após um percurso reflexivo e com método indubitável de alcançar conclusão de acordo com a realidade. O senso crítico é não se deixar influenciar por supostas verdades achadas, impostas ou manipuladas como se apresentam. E a postura ou visão crítica é sempre não aceitar verdades inquestionáveis ou absolutas se não passar pelo crivo do questionamento e da reflexão.
O método científico se apoia, portanto, na razão e na experiência. O racionalismo confia na capacidade da mente humana de alcançar verdades universais por meio do pensamento lógico. Já o empirismo valoriza a experiência sensível, a observação direta dos fenômenos. Ambos, apesar de suas divergências, convergem no mesmo propósito: compreender o mundo e prever seus fenômenos, buscando verdades que, ainda que temporárias, orientam o progresso do conhecimento.
Assim, portanto, a crítica é mais que um exercício intelectual – é o próprio motor da evolução da consciência humana. Sem ela, não há ciência, não há filosofia, não há avanço. É o método que transforma opinião em saber, crença em convicção e intuição em verdade fundamentada.
Ser crítico é ser questionador, criterioso, reflexivo, sensato e responsável com a realidade que lhe é apresentada e constatada.
Em tempos de superficialidade e discursos prontos, o pensamento crítico é um ato de resistência. É ele que nos permite distinguir o fato da ilusão, o argumento da retórica, o conhecimento da manipulação.
Contudo, sabe-se que “a crítica dos críticos” de filmes, músicas, artes, jornalismo e política, e o que significa quando vemos, ouvimos ou lemos a respeito e como considerá-la e valorizá-la?
No mundo do cinema, a crítica é a análise e avaliação de um filme, que combina opinião fundamentada e contextualizada nos seus elementos como roteiro, direção, atuação, trilha sonora e produção, que guia o público na questão da qualidade para reflexão e, também, para seu impacto cultural e social.
Na música, a crítica é a análise, julgamento e avaliação de obras musicais, que se verifica seu valor cultural, histórico, letra, melodia e produção em excelência e importância. Tal análise vai além de simplesmente dizer se uma música é boa ou ruim, envolve critérios de contexto sociológico, referencial de influência em relação ao público e não se restringe a um tipo de estilo ou ritmo. Toda música merece uma apreciação e devida valorização que desperta aos ouvintes, os devidos critérios.
Já, a crítica televisiva é o julgamento e análise de produções audiovisuais (gravado ou “ao vivo”) que pode ser feita por especialistas (acadêmicos como sociólogos, artistas cênicos ou graduados em cinema, rádio, TV ou em mídias digitais ou multimídia ou mass media, e, também, podem ser jornalistas ou profissionais de comunicação social em geral, que podem ser formados em publicidade ou relações públicas) ou pelo público, no sentido de verificação de influência de percepção de audiência e desenvolvimento das obras televisivas, como novelas, séries, minisséries, desenhos, reality shows, programas de auditório, produções variadas de entretenimento, programas humorísticos, musicais, telejornais e programas jornalísticos (reportagens e entrevistas), e assim, buscar entender a proposta da obra audiovisual, seu impacto cultural e sua relação com o espectador contemporâneo. A crítica ajuda, portanto, nesse caso, a validar obras, questionar os modelos vigentes e impulsionar a inovação, especialmente com o avanço da internet, que ampliou o alcance e o número de críticos.
Na literatura, a crítica é o estudo da interpretação e avaliação de obras literárias, seja poesia ou prosa, romance, novela, conto, crônica, ensaio, peça teatral, pois se busca desvendar e aprofundar o significado da obra literária em si, sua simbologia e as influências da mensagem textual.
Nas artes em geral, a crítica pode se referir a diferentes conceitos, pois a crítica artística interpreta as obras artísticas (pintura, arquitetura, desenho, artesanato, exposições, dança, artes cênicas e visuais, entre outras possibilidade, pois a arte é bem ampla e tem o cerne do valor e princípio, a estética do bom gosto e inovador na ousadia). Em um sentido mais amplo, também pode se referir à arte de crítica, que usa a arte como ferramenta para questionar e provocar reflexão sobre a sociedade.
Na política, a crítica é a análise, avaliação e questionamento das ações políticas, instituições e indivíduos (atores políticos, como detentores de cargos eletivos, candidatos, ministros, secretários estaduais e municipais, assessores, autoridades públicas e líderes de movimentos sociais), que atuam na esfera pública, com o objetivo de promover um debate sobre o bem-estar coletivo e a democracia. Ela envolve a reflexão sobre o poder político, as estruturas sociais e as consequências das decisões de governo, muitas vezes utiliza ferramentas como a filosofia, a análise social e o jornalismo para devida manifestação.
No jornalismo, a crítica da mídia é fundamental para fiscalizar a própria imprensa, ora denominada “o Quarto Poder”, como um recurso importante para instruir o público a distinguir fatos de discursos falsos, especialmente em um ambiente de desinformação. Assim como o jornalismo qualifica a vida pública, a crítica jornalística avalia a qualidade dessa informação e verifica o que ganha visibilidade e o que é relevante.
O termo “crítica” não se refere apenas a encontrar falhas, mas sim a uma avaliação cuidadosa e argumentada do trabalho do autor e de seu estilo. A prática pode ser feita por estudiosos para um público acadêmico ou público jornalístico, o que é então considerada uma convenção da qualidade da apreciação de uma obra ou produto a ser avaliado, julgado e analisado de modo criterioso e sistematizado.
Ser crítico é, portanto diante da filosofia e de outras áreas do conhecimento , ser protagonista da própria vida na busca da verdade e ser transformador da própria realidade, quando engajado e comprometido na sociedade ao viver a essência de “livre pensador”.
E talvez seja essa, afinal, a mais alta forma de verdade que a razão humana pode alcançar.
Lúcio Rangel Ortiz – Professor Mestre em Planejamento e Análise de Políticas Públicas e Pesquisador DeMus (UNESP), MBA em Gestão de Projetos (USP), Professor Licenciado em Filosofia (UFSJ), em Sociologia (Uni-FAVENI) e em Matemática (UNAR). É escritor, palestrante e colunista do Portal Fato no Ato – Intelecto Saber.


