Coceira persistente, ressecamento severo e eczemas que nunca desaparecem completamente levam frequentemente os pacientes a acreditarem que têm apenas uma "pele sensível". No entanto, esses sinais podem fazer parte de um processo conhecido como inflamação tipo 2, um padrão de resposta do sistema imunológico que, quando desregulado, afeta a barreira cutânea e pode estar associado a manifestações em outras partes do corpo.
O mecanismo está presente na dermatite atópica e pode, em alguns casos, coexistir com outras condições, como rinite, asma e esofagite eosinofílica, uma inflamação crônica do esôfago que pode provocar dificuldade para engolir. Contudo, os especialistas reforçam que ter uma dessas condições não significa obrigatoriamente que o paciente desenvolverá as demais.
Essa resposta imunológica acontece quando o sistema de defesa reage de forma exagerada e prolongada. Como pode atingir diferentes órgãos ao mesmo tempo, uma mesma pessoa passa a apresentar lesões na pele, nariz entupido, falta de ar e outras manifestações alérgicas que parecem não ter relação entre si.
"Um paciente pode, por exemplo, tratar a pele e continuar com asma, rinite ou sintomas nasais sem acompanhamento adequado. Quando identificamos essas associações, conseguimos organizar melhor o cuidado e encaminhar o paciente para as especialidades necessárias", explica a dermatologista Marcela Cestari, do Hospital Sírio-Libanês.
De acordo com a especialista, essa falta de visão integrada faz com que muitos convivam com o desconforto por anos. "É comum ouvir frases como ‘minha pele sempre foi sensível’ ou ‘já me acostumei com a coceira’. O problema começa quando o paciente passa a adaptar a própria rotina à doença. Se esses sintomas interferem no sono ou na qualidade de vida, é hora de buscar ajuda", afirma Cestari.
Ainda não existe um sintoma isolado ou teste específico que determine a presença de inflamação tipo 2. Alterações em exames de sangue, como a elevação de eosinófilos, células do sistema imunológico envolvidas em processos inflamatórios, ou de IgE (imunoglobulina E), podem ocorrer porque a falha na barreira da pele facilita o contato com agentes externos. No entanto, esses marcadores não são suficientes para confirmar a condição.
O diagnóstico é estritamente clínico e depende de uma boa anamnese, do exame físico da pele, da distribuição das lesões e do histórico do paciente. Exames laboratoriais não diagnosticam a doença isoladamente e a reação tipo 2 não deve ser confundida com uma simples alergia.
O tratamento varia de acordo com a doença, a intensidade dos sintomas e as características de cada paciente. Medicamentos à base de corticoides podem fazer parte da abordagem em algumas situações, mas o uso prolongado ou recorrente pode aumentar o risco de efeitos adversos. Por isso, a escolha da terapia, a dose e o tempo de tratamento devem ser definidos pelo médico.
Na visão da médica, reconhecer o mecanismo da inflamação ajuda a manter a doença sob controle ao invés de tratar apenas os momentos de crise.
"Uma pergunta simples na consulta ajuda a ampliar esse olhar: além da pele, como estão seu nariz e sua respiração? O objetivo é sair do ciclo de tratar apenas as crises e estabelecer uma estratégia de controle da doença", conclui a dermatologista.



