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    Agressor, mídia e sociedade: quantas vezes a vítima morre?

    DINOBy DINO9 de julho de 2026
    Agressor, mídia e sociedade: quantas vezes a vítima morre?
    Agressor, mídia e sociedade: quantas vezes a vítima morre?

    A cada novo caso de feminicídio ou agressão contra uma mulher, o país parece reviver o mesmo roteiro: choque, indignação e uma rápida sucessão de manchetes que logo cedem espaço à próxima urgência do noticiário. O problema é que, quando a violência doméstica é narrada apenas como um episódio isolado, perde-se a dimensão mais importante da questão: ela é um fenômeno estrutural, sustentado por desigualdades históricas, relações de poder e falhas coletivas de proteção.

    Essa constatação não nasce apenas da experiência clínica. Em pesquisa de doutorado em Psicologia, Milena Paula Samuel analisou 3.350 notícias publicadas entre 2015 e 2023 em cinco grandes jornais brasileiros para compreender como a violência contra mulheres, crianças e adolescentes é apresentada ao público. O resultado revelou um padrão preocupante: a cobertura concentra-se majoritariamente no fato consumado, a agressão, a prisão ou a morte, enquanto dedica muito menos espaço à prevenção, à rede de apoio e aos sinais anteriores da violência.

    Quando a notícia começa apenas no momento da tragédia, a sociedade é levada a acreditar que aquele caso surgiu de forma repentina. Mas a violência doméstica raramente começa com um crime extremo. Ela costuma ser precedida por controle, humilhações, isolamento, ameaças, dependência emocional ou econômica e sucessivas violações da autonomia da mulher. São sinais que, muitas vezes, permanecem invisíveis porque culturalmente ainda aprendemos a minimizar comportamentos abusivos dentro das relações afetivas.

    O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo no enfrentamento à violência doméstica, representada pela Lei Maria da Penha. Ainda assim, milhares de mulheres continuam encontrando dificuldades para romper o ciclo da violência. Muitas não denunciam por medo, dependência financeira, preocupação com os filhos ou pela esperança de que o parceiro mude. Outras chegam a procurar ajuda, mas encontram respostas fragmentadas entre saúde, assistência social, segurança pública e Justiça.

    É nesse ponto que a forma como falamos sobre violência se torna decisiva. A linguagem nunca é neutra. Quando uma reportagem enfatiza "crime passional", "briga de casal" ou "desentendimento amoroso", desloca o foco da responsabilidade do agressor e suaviza a gravidade do que ocorreu. Quando contextualiza o caso como violência de gênero, explica os mecanismos de proteção e informa os canais de ajuda, transforma-se em instrumento de prevenção.

    Segundo Milena Paula Samuel, doutora em Psicologia, a prática clínica evidencia com frequência mulheres altamente escolarizadas, profissionais bem-sucedidas e socialmente independentes perguntando a si mesmas por que permaneceram tanto tempo em relações violentas. Essa pergunta revela um equívoco coletivo: ainda imaginamos que a violência doméstica atinge apenas mulheres vulneráveis economicamente ou com pouca instrução. A realidade é muito mais complexa. O abuso pode atravessar qualquer classe social, profissão ou nível de escolaridade, justamente porque opera também por vínculos afetivos, culpa, medo e desgaste emocional progressivo.

    "Precisamos abandonar a ideia de que o enfrentamento da violência doméstica é responsabilidade exclusiva da vítima. Trata-se de uma tarefa social. Escolas, empresas, serviços de saúde, vizinhos, familiares e meios de comunicação têm papel fundamental na identificação precoce dos sinais de risco. Quanto mais cedo a violência é reconhecida, maiores são as chances de proteção antes que ela evolua para formas graves ou letais", afirma Milena.

    Também é necessário ampliar o debate sobre os impactos da violência na trajetória profissional das mulheres. Muitas vítimas faltam ao trabalho, reduzem sua produtividade, abandonam projetos ou interrompem carreiras devido ao sofrimento psicológico e às consequências práticas do abuso. A violência doméstica não permanece dentro de casa: ela afeta a economia, a saúde pública e o desenvolvimento social do país.

    Transformar essa realidade exige mais do que indignação momentânea. Exige informação qualificada, responsabilidade coletiva e uma mudança na maneira como enxergamos os relacionamentos abusivos. Enquanto continuarmos tratando cada caso como uma tragédia privada, seguiremos chegando tarde demais. A pergunta que precisamos fazer não é apenas por que uma mulher não saiu antes, mas por que a sociedade ainda demora tanto para reconhecer os sinais que antecedem a violência.

    Sobre Milena Paula Samuel

    Milena Paula Samuel é doutora em Psicologia, pesquisadora das narrativas midiáticas sobre violência e autora do livro "Até que a Morte Nos Separe? Metendo a Colher e Promovendo Saúde nos Relacionamentos Conjugais".

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