Um dos eventos culturais mais tradicionais da cidade vive momentos de incerteza e preocupação. O Festival “Águas de Março”, que chega à sua 34ª edição, está sob risco. Segundo relato de agentes culturais e imagens enviadas com exclusividade ao Portal FNT que mostram o hall de entrada do Teatro Municipal “José Cyrino Goulart” em estado de abandono e descuido.
Moradores e artistas que frequentam o equipamento apontam rachaduras, infiltrações e sujeira no entorno, indicadores de falta de manutenção em um espaço que deveria acolher o público e fomentar a arte local. As fotos sugerem que o cenário preocupa quem depende desses espaços para apresentar trabalhos e eventos.
Um dos eventos culturais mais tradicionais de Franca
Realizado desde meados da década de 1980, o Festival “Águas de Março” se consolidou ao longo de mais de três décadas como uma das principais vitrines culturais de Franca. O evento reúne apresentações de teatro, música, literatura, dança, hip-hop e outras manifestações artísticas, com foco em artistas locais e regionais, e tem entrada gratuita para toda a população.
Em 2025, por exemplo, o festival contou com apresentações de grupos e artistas da cidade, distribuindo prêmios em dinheiro aos participantes:
- 1º lugar (destaque): R$ 2.000
- 2º lugar (mérito): R$ 1.500
- 3º lugar (revelação): R$ 1.000
- 4º ao 6º lugar (menção honrosa): R$ 500
Além da entrega de certificados a todos os inscritos.
Esses valores, embora representem uma reconhecimento simbólico, vêm sendo questionados por artistas que argumentam que custos de produção e montagem, especialmente para bandas ao vivo, grupos de teatro e técnicos contratados – lhes dá margem mínima para cobrir despesas básicas. Para muitos, valores entre R$ 500 e R$ 2 mil são insuficientes diante do tamanho do investimento que uma produção artística exige (cenário, som, figurino etc.).

Mais do que o Teatro Municipal: outros espaços também sofrem com abandono
O Teatro Municipal, tradicional sede do evento, não é o único local em situação preocupante. Fotografias e relatos apontam que outros equipamentos culturais e públicos de Franca, como o Edifício Champagnat, o Teatro de Bolso “Orlando Dompieri”, o Terminal Rodoviário, o Museu Histórico, o Parque Fernando Costa e a Praça da Cultura, ao lado do teatro, também enfrentam ausência de cuidados básicos há longo tempo.
Para artistas e moradores, tais espaços carregam história, identidade e memória da cidade, e a deterioração reflete não apenas descaso com a cultura, mas com a própria preservação do patrimônio público.

Retrocesso ou falta de prioridade?
Em 2025, devido a atrasos burocráticos no início da gestão da nova Secretaria de Esporte e Cultura, que estava em fase de implementação, o festival que tradicionalmente ocorreria em março acabou sendo realizado somente em abril. Passado mais de um ano dessa experiência, líderes culturais questionam: qual será a justificativa em 2026? A falta de clareza e diálogo entre gestores públicos e a comunidade artística amplia o sentimento de insegurança e frustração.
Importância cultural do festival para Franca
O Águas de Março sempre foi mais do que um evento de premiação artística; ele é entendido por muitos como um laboratório de experiência para artistas emergentes, um ponto de encontro entre diferentes linguagens artísticas e um espaço de formação de público para as artes. Além disso, funciona como um incentivo financeiro e simbólico para quem produz cultura na cidade, incentivando a continuidade de projetos e diálogos culturais.
Artistas argumentam que a manutenção de um festival desse porte exige não apenas boa intenção, mas planejamento, estrutura física adequada e investimentos compatíveis com as necessidades artísticas.

O que dizem os artistas?
Grupos de teatro, músicos e técnicos culturais consultados preferiram manter-se anônimos, mas relataram sensação de “abandono institucional” e falta de diálogo direto com as secretarias responsáveis. Muitos apontaram que a indústria cultural em Franca depende desses espaços públicos para sobreviver, e que a atual situação representa um retrocesso em relação às conquistas obtidas nos últimos anos.
Recursos da PNAB: investimento em estrutura ou retirada de fomento direto aos artistas?
Outro ponto que tem gerado forte questionamento por parte da classe artística é o uso de recursos provenientes da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).
A PNAB é um programa federal de fomento contínuo à cultura, criado para fortalecer o setor cultural em estados e municípios, com repasses anuais destinados à execução de políticas públicas culturais, especialmente por meio de editais, premiações, chamamentos públicos e ações estruturantes.
Em Franca, parte significativa dos recursos do ciclo 2024 da PNAB, mais de R$ 500 mil, foi direcionada para intervenções no Museu Histórico de Franca. Já foi sinalizado, inclusive, que novos valores do ciclo seguinte poderão ser utilizados para continuidade de reformas em equipamentos culturais.
A discussão que se estabelece não é sobre a importância da preservação de prédios históricos, que é indiscutível, mas sobre a prioridade da aplicação dos recursos.
Artistas questionam:
- Recursos federais destinados ao fortalecimento da produção artística local deveriam ser utilizados majoritariamente para obras estruturais?
- Reformas prediais não deveriam ser custeadas por outras fontes orçamentárias do município?
- Qual o planejamento, cronograma e transparência dessas intervenções?
Além disso, segundo representantes do setor cultural, há reclamações recorrentes sobre a falta de divulgação detalhada do andamento das reformas, valores executados, etapas concluídas e previsão de entrega.
Enquanto isso, produtores culturais relatam dificuldades para viabilizar espetáculos, manter grupos ativos e custear equipes técnicas, muitas vezes com premiações que variam entre R$ 1 mil e R$ 2 mil no caso do Festival Águas de Março.
Para parte da classe artística, o sentimento é de que há um deslocamento de foco: investe-se na estrutura física, mas enfraquece-se quem efetivamente produz cultura na cidade.
Sugestões envie para cairostill@portalfnt.com.br ou jornalismo@portalfnt.com.br



