Imagens das câmeras de segurança do prédio mostram que o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, tomou banho e trocou de roupa após a morte da também policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, encontrada com um tiro na cabeça no apartamento onde o casal vivia, no Brás, região central de São Paulo, na manhã do dia 18 de fevereiro.
O caso foi inicialmente registrado como suicídio após o tenente-coronel afirmar que Gisele atirou contra a própria cabeça depois de uma discussão entre eles. No entanto, a família da policial questiona a versão e o caso passou a ser investigado como morte suspeita.
A CNN Brasil teve acesso às imagens que mostram toda a movimentação no andar do apartamento após a morte da policial. A reportagem também acessou o áudio das ligações que o tenente-coronel fez para a Polícia Militar e para o Corpo de Bombeiros.
As imagens mostram, por volta das 8h da manhã do dia 18 de fevereiro, momentos após a morte de Gisele, o tenente-coronel caminhando pelo corredor do andar do apartamento e falando ao telefone. Na ligação ao 190, ele afirmou: “Minha esposa se matou com um tiro na cabeça”.
Quinze minutos depois das ligações, as câmeras mostram a chegada de agentes do Corpo de Bombeiros, funcionários do prédio e de policiais militares ao local. Eles entram no apartamento e retiram Gisele do local. Ela chegou a ser socorrida ao Hospital das Clínicas, mas não resistiu.
Por volta das 9h da manhã, é possível ver a chegada de um homem na cena. Segundo a investigação, trata-se do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo).
Segundo o inquérito, Cogan recebeu uma ligação de Neto e compareceu ao local a pedido do policial militar. À polícia, Neto declarou que o magistrado é um amigo pessoal e, por essa razão, o acionou.
Acompanhado do desembargador, o tenente-coronel retornou ao apartamento para tomar banho mesmo sendo orientado a não faze-lo, segundo o boletim de ocorrência. Conforme o inquérito, ele havia sido orientado a ir ao Hospital das Clínicas para atendimento psicológico, no entanto, antes de ir, voltou para a residência junto ao magistrado.
Questionado, Neto afirmou que sabia que ficaria longe por um longo período e, por isso, optou por tomar banho e trocar de roupa.
Um ponto que chamou a atenção da investigação é que, na versão inicial dada à Polícia Militar, o tenente-coronel relatou que estava tomando banho quando ouviu o estampido de uma arma de fogo, encontrando, posteriormente, a policial Gisele caída no chão.
Em nota, o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan afirmou que foi chamado como amigo do coronel após os fatos. “Eventuais esclarecimentos, se necessários, serão dados à Polícia Judiciária”, declarou.
Versão das testemunhas
No inquérito, policiais militares presentes no dia do ocorrido prestaram depoimentos onde citam a presença do desembargador no apartamento após a morte da soldado.
De acordo com uma das testemunhas, o tenente-coronel anunciou que iria tomar banho mesmo após os policiais afirmarem que ele não poderia entrar no imóvel naquele momento. O declarante afirmou ainda que Neto teria ignorado a orientação e entrado no apartamento acompanhado do desembargador.
Outro policial ouvido no inquérito confirmou a mesma versão, afirmando que o oficial acessou o imóvel mesmo após a recomendação de preservação do local.
Em um outro depoimento, um PM relatou que, ao retornar para o apartamento, ficou ao lado do tenente-coronel Neto, que se encontrava na companhia do desembargador Cogan, por um tempo. Segundo o relato, o magistrado, em nenhum momento, explicou o porquê de estar ali.
A versão do policial testemunha afirma ainda que o Neto estava aparentemente seco e que “não se recorda de ter visto toalhas no local” no momento do resgate, contradizendo a versão inicial apresentada pelo mesmo.
No quarto de solteiro, o policial contou que visualizou fardas penduradas em cabides do lado de fora do guarda-roupa, junto com um colete balístico. Além disso, relatou ter visto uma árvore de natal em cima da cama. Neto teria questionado a presença do item em cima da cama e afirmado que alguém teria mexido em seu quarto.
Bombeiro estranhou maneira como policial foi achada
Ainda conforme informações do inquérito, um dos bombeiros que atuaram na ocorrência diz, em relato, ter achado estranho a maneira como Gisele foi encontrada.
Segundo ele, a vítima estava caída entre o sofá e a estante da sala, com muito sangue na região da cabeça, inclusive sangue já coagulado, segurando a arma na mão direita, com o dedo fora do gatilho.
O agente afirma que resolveu, por iniciativa própria, tirar uma foto do local por “achar estranho tal cena”. Segundo ele, a foto tinha como objetivo preservar a cena dos fatos, já que precisava retirar a vítima do local para prestar socorro.
O bombeiro disse ainda que observou ao redor para procurar o cartucho da arma, mas não encontrou. Além disso, o agente afirma que a mulher não apresentava rigidez cadavérica e que a arma foi retirada da mão dela com muita facilidade.
Relembre o caso: “morte suspeita”
O caso foi tratado como suicídio, após o tenente-coronel afirmar em depoimento que a esposa havia atentado contra a própria vida momentos após ele anunciar a separação.
No entanto, a investigação da Polícia Civil de São Paulo passou a investigar o ocorrido depois de familiares da vítima declararem que Gisele vivia um relacionamento abusivo com Geraldo. Segundo a mãe da vítima, o tenente-coronel proibia a a esposa de utilizar batom, salto alto e perfume, além de exigir cumprimento de tarefas domésticas e controlar suas redes sociais.
A policial ainda teria relatado à mãe, dias antes do ocorrido, o desejo de se separar do marido, mas desistiu da decisão após Neto enviar uma foto com uma arma apontada para a própria cabeça como ameaça.
No último dia 2, a Polícia Civil realizou reconstituição da ocorrência a partir das novas suspeitas e dos depoimentos colhidos. Na sexta (6), a equipe exumou o corpo de Gisele para novo laudo médico.
À CNN Brasil, a defesa da família de Gisele, composta pelo advogado Dr. Miguel Silva, declarou que os familiares já estão cientes da exumação e que as perícias já foram devidamente realizadas.
O que diz a defesa do tenente-coronel
O escritório de advocacia Malavasi, que atua na defesa do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, enviou uma nota sobre o caso. Veja abaixo:
“Até o presente momento, o tenente-coronel não figura como investigado, suspeito ou indiciado no procedimento em curso. Desde o início das apurações, tem colaborado com as autoridades competentes e permanece à disposição para esclarecimento dos fatos.
Não obstante, vêm sendo divulgadas informações e interpretações que alcançam aspectos de sua vida privada, muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade.
A intimidade, a vida privada, a honra e a imagem constituem direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal (art. 5º, X), razão pela qual a divulgação de elementos pertencentes a essas esferas encontra limites nas garantias constitucionais, sendo certo que, no momento oportuno, sua equipe jurídica irá reprochar toda e qualquer divulgação ou interpretação que venha vilipendiar tais direitos em relação ao tenente-coronel.
Por fim, o escritório reafirma sua confiança na atuação das autoridades responsáveis pela condução das investigações reitera que o renente-coronel permanece à disposição para colaborar com a completa elucidação dos fatos”.
O que diz a SSP
“A Polícia Civil informa que a ocorrência foi registrada inicialmente como suicídio consumado no 8º Distrito Policial (Brás). Posteriormente, a natureza do registro foi alterada para morte suspeita, com o objetivo de permitir a apuração detalhada das circunstâncias do óbito. A exumação do corpo da vítima foi realizada na última sexta-feira (6). A autoridade policial aguarda os resultados dos laudos periciais do Instituto Médico Legal (IML), que serão incorporados ao conjunto probatório já analisado no inquérito, com o objetivo de contribuir para a completa elucidação dos fatos. Demais detalhes sobre o inquérito serão preservados devido ao sigilo judicial imposto. O oficial citado no caso está afastado de suas funções a pedido. A Corregedoria da Polícia Militar acompanha as investigações e permanece à disposição para colaborar com os esclarecimentos necessários.”



