O mistério sobre a morte do trabalhador rural Milton de Souza do Prado,o suposto plano de vingança que terminou com sequestro, cárcere privado, dois corpos em Minas Gerais e uma mulher foragida, segue intrigando a Polícia Civil de Franca. Em meio às investigações sobre o caso um outro fato chamou a atenção da imprensa de Franca e região que cobrem o trabalho policial: uma equipe de reportagem da TV Record de São Paulo teria tido acesso, com exclusividade, aos passos da investigação da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Franca, chefiada pelo delegado Marcio Murari.
Durante esta semana o repórter Ari Peixoto, do Domingo Espetacular da TV Record, acompanhou todos os passos da investigação realizada por agentes da DIG. O resultado da reportagem deverá ser exibido na noite deste domingo, 19, no programa apresentado pelos jornalistas Roberto Cabrini e Camila Busnello.
De acordo com o repórter Alexandre Silva, do Portal FNT e Porça News, Marcio Murari teria mantido a imprensa de Franca e região distante das investigações durante os registros das câmeras da TV Record de São Paulo.
Investigação da Polícia Civil aponta que o assassinato de Milton de Souza do Prado desencadeou uma sequência de crimes envolvendo familiares da vítima, desaparecimentos, execução de suspeitos, ocultação de cadáveres e um grupo liderado por uma mulher que buscava descobrir o paradeiro dos responsáveis pelo homicídio.
O que parecia ser apenas mais um homicídio registrado em Franca transformou-se em uma das investigações mais complexas dos últimos anos na região.
Em pouco mais de um mês, o caso passou a reunir homicídio qualificado, desaparecimentos, cárcere privado, sequestro, ocultação de cadáver, associação criminosa e uma operação policial que terminou com vítimas libertadas e um suspeito preso em flagrante.

O assassinato de Milton
Tudo começou na manhã de 16 de junho de 2026, quando Milton de Souza do Prado, de 44 anos, foi encontrado morto na propriedade rural onde trabalhava, no Residencial Zanetti, em Franca.
No início das investigações, familiares disseram desconhecer qualquer motivo que pudesse explicar o crime.
A própria companheira afirmou que Milton era um homem trabalhador, conhecido por ajudar as pessoas, e que não imaginava quem pudesse desejar sua morte.
Mas, conforme a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) aprofundava a apuração, a linha investigativa mudou completamente.
A filha passa a ser apontada como mandante
Segundo a Polícia Civil, a investigação levou até Maria Isabel Oliveira Prado, de 21 anos, filha mais velha de Milton.
Durante depoimento, conforme consta nos autos, ela confessou participação no crime e apontou como executores Rafael Vitor Silva de Sousa Rosa, de 18 anos, e Guilherme Henrique Melo da Cruz, de 22 anos.
Os dois eram namorados das filhas de Milton. Na época, uma das adolescentes da família estava grávida de aproximadamente oito meses.
Com base nas provas reunidas, a Polícia Civil representou pela prisão preventiva dos três investigados.
Entretanto, o Ministério Público manifestou-se contrário à prisão de Maria Isabel naquele momento, entendendo que a medida não era necessária. A Justiça decretou apenas a prisão preventiva de Rafael e Guilherme.
O desaparecimento dos suspeitos muda novamente a investigação
Antes que os mandados fossem cumpridos, Rafael e Guilherme desapareceram. Pouco depois, Maria Isabel também deixou de ser localizada. Foi então que a investigação tomou um rumo ainda mais dramático.
Segundo a Polícia Civil, começaram a surgir informações de que pessoas próximas aos dois desaparecidos acreditavam que a família de Milton sabia onde eles estavam. Foi nesse contexto que surgiu o nome de Noemi Vitória de Sousa Rosa, tia de Rafael.
A suposta articulação de Noemi
De acordo com o depoimento prestado por Andresa de Oliveira, companheira de Milton, Noemi teria iniciado uma série de ameaças contra a família.
Ainda segundo a vítima, Noemi passou a responsabilizar a família pelo desaparecimento de Rafael e Guilherme.
No domingo, 5 de julho, conforme relatado à Polícia Civil, Noemi chegou à residência acompanhada de aproximadamente cinco mulheres.
Segundo o depoimento, o grupo entrou na casa exigindo informações sobre o paradeiro dos dois homens.
Ainda conforme o relato, Andresa, Maria Isabel, Maria Gabriela e a recém-nascida Maria Tereza foram obrigadas a entregar seus celulares, fornecer as senhas dos aparelhos e entrar no carro da família.
A partir daquele momento, segundo a investigação, iniciou-se uma sequência de restrições à liberdade das vítimas.
Pressão, ameaças e separação das vítimas
Conforme o depoimento de Andresa, o grupo percorreu diversos locais da cidade. As vítimas foram levadas inicialmente para a residência de Noemi, depois até o sítio onde Milton trabalhava e, posteriormente, para outro imóvel, onde continuaram sendo pressionadas a revelar onde Rafael e Guilherme estavam escondidos.
Durante esse período, Maria Isabel foi separada das demais mulheres.
Quando retornou, segundo a mãe, estava muito abalada, chorando e apresentando sinais aparentes de agressão.
Naquela noite, as mulheres voltaram para casa, mas continuaram sem os celulares e sob ameaças. Segundo Andresa, o grupo avisou que retornaria na manhã seguinte.
O cárcere privado
Na manhã de 6 de julho, conforme o depoimento, Noemi voltou acompanhada das mesmas mulheres. Novamente, Andresa, Maria Isabel, Maria Gabriela e a recém-nascida foram obrigadas a entrar no veículo.
Dessa vez, todas seguiram até uma residência localizada na Rua Madre Maria Vilac, no Jardim Aeroporto III. Segundo a investigação, pouco tempo depois Noemi deixou o imóvel levando Maria Isabel.
Já Andresa, Maria Gabriela e a bebê permaneceram trancadas em um pequeno quarto localizado nos fundos da residência. Segundo a vítima, o local possuía pouca iluminação, ventilação precária e nenhuma possibilidade de fuga.
Durante todo o período em que permaneceram no imóvel, elas ficaram sob vigilância constante de um homem que escondia o rosto com uma blusa sempre que precisava se aproximar.
Ainda conforme o relato, elas só podiam sair do quarto para utilizar o banheiro mediante autorização do vigilante. As refeições eram entregues no próprio cômodo.
Como a recém-nascida estava sem fraldas e sofrendo com assaduras, o homem teria comprado fraldas descartáveis e pomada.
Esses objetos, além de embalagens de alimentos e restos de pizza, foram encontrados posteriormente pela perícia, corroborando parte da narrativa apresentada pelas vítimas.
A operação da DIG
Na tarde de 7 de julho, investigadores da Delegacia de Investigações Gerais receberam denúncias anônimas informando que as vítimas estavam em cárcere privado. As equipes seguiram até o endereço indicado.
Ao chegarem ao imóvel, perceberam intensa movimentação e um homem tentando fugir pelos fundos. Diante do risco à vida das vítimas, os policiais realizaram o ingresso tático na residência.
O suspeito tentou escapar pulando muros e, antes de ser alcançado, destruiu o próprio telefone celular, numa aparente tentativa de eliminar possíveis provas. Inicialmente, ele apresentou um nome falso.
Depois foi identificado como Wellington Amorim da Silva, investigado conhecido da Polícia Civil por envolvimento em crimes patrimoniais.
Segundo os autos, Andresa reconheceu a botina e a blusa apreendidas com Wellington como sendo as mesmas utilizadas pelo homem que fazia a vigilância do cativeiro.
O reconhecimento de Noemi
Ainda durante o atendimento policial, Andresa também reconheceu, sem hesitação, uma fotografia de Noemi Vitória de Sousa Rosa. Segundo o depoimento, foi ela quem liderou toda a ação.
A vítima afirmou que Noemi coordenava as cobranças pelo paradeiro de Rafael e Guilherme, permaneceu com os celulares da família, reteve a chave do veículo de Maria Isabel e exercia posição de liderança sobre os demais integrantes do grupo.
Andresa ainda declarou acreditar que ela, as filhas e a neta recém-nascida seriam mortas caso Rafael e Guilherme não fossem encontrados.
Os corpos em Minas Gerais
Enquanto a investigação sobre o sequestro avançava, veio outra descoberta. Os corpos de Rafael Vitor Silva de Sousa Rosa e Guilherme Henrique Melo da Cruz foram encontrados em uma área rural de Sacramento (MG). Segundo a Polícia Civil, havia indícios de que ambos foram executados.
A investigação aponta que os corpos teriam sido transportados no carro utilizado por Maria Isabel.
Imagens de câmeras de monitoramento registradas em Rifaina mostram o veículo seguindo em direção a Sacramento, pela Rodovia Cândido Portinari.
Prisão do irmão de Milton
Outro desdobramento importante foi a prisão de Cláudio de Souza Prado, de 42 anos, irmão de Milton.
Segundo a Polícia Civil, Cláudio confessou ter ajudado a ocultar os corpos de Rafael e Guilherme em uma área rural de Sacramento.
Conforme o depoimento, ele afirmou que os cadáveres foram levados até o local por Maria Isabel.
Casa invadida e investigações continuam
Mesmo após o resgate das vítimas, a violência não terminou. A residência da família de Milton foi invadida durante a madrugada. O imóvel foi completamente revirado e um veículo foi levado. A Polícia Científica realizou perícia para tentar identificar os responsáveis.
Atualmente, Wellington Amorim da Silva responde pelas acusações relacionadas ao cárcere privado.
Já Noemi Vitória de Sousa Rosa, apontada pela Polícia Civil como líder do grupo responsável pelo sequestro e pelas ameaças contra a família de Milton, continua foragida. As investigações prosseguem para localizar os demais envolvidos, esclarecer todas as circunstâncias dos crimes e identificar a participação individual de cada investigado em uma sequência criminosa que começou com o assassinato de Milton e desencadeou uma sucessão de fatos que ainda desafia os investigadores da DIG de Franca.
Foto e vídeos: Alexandre Silva



