Após uma arrastada reforma no prédio da Câmara Municipal de Franca, um novo capítulo de indignação tomou conta do meio artístico da cidade. A emblemática obra “The End”, do artista plástico Salles Dounner, que por anos integrou a decoração do plenário do Legislativo, foi retirada durante as intervenções estruturais e, segundo relatos, acabou armazenada em um depósito de “tralhas velhas”, sem os devidos cuidados técnicos de conservação.
O caso já era alvo de críticas desde 2021, quando o então presidente da Câmara, vereador Claudinei da Rocha, encaminhou o ofício 54/2021 ao prefeito Alexandre Ferreira, informando que a obra poderia ser retirada do plenário em razão das reformas e sugerindo sua realocação para um espaço de maior visibilidade. O documento indicava que a peça estava à disposição para retirada pelo Executivo.

A pintura, restaurada em 9 de fevereiro de 2010 pelo saudoso Gaspar Batista do Reis, integra o patrimônio da antiga FEAC, Fundação Esporte, Arte e Cultura, atualmente vinculada à Secretaria Municipal de Esportes e Cultura. À época, houve documentação oficial de empréstimo à Câmara para exposição permanente no plenário. Contudo, segundo agentes culturais, não houve formalização adequada para sua devolução à Fundação após a retirada.

Descaso e falta de responsabilidade técnica
Um dos pontos mais criticados é a ausência de servidores ou comissionados com especialização em conservação e preservação de obras artísticas tanto na Câmara quanto na Prefeitura ou na própria Fundação. Artistas e membros do grupo “Memorial do Artista Francano” afirmam que a falta de definição clara sobre quem responde oficialmente pela área cultural contribuiu para o abandono da tela.
Além disso, há registro de documento oficial da FEAC delegando ao setor de patrimônio da Câmara a responsabilidade pela guarda da obra enquanto estivesse sob custódia do Legislativo. Mesmo assim, a peça teria permanecido armazenada de maneira inadequada por mais de dois anos e oito meses.

Mobilização cultural e apelo político
A situação provocou mobilização entre artistas e agentes culturais de Franca. Integrantes da classe recorreram à vereadora Marília Martins (PSOL), solicitando intervenção junto ao Executivo para garantir a recuperação e o retorno da obra ao plenário ou a um espaço cultural apropriado.
No pedido encaminhado à parlamentar, representantes da Academia Francana de Belas Artes, em nome de seu presidente Beto Monteiro, destacaram que apenas uma ação firme do Legislativo poderia assegurar a preservação da peça e o respeito ao patrimônio artístico municipal.
Entre as alternativas sugeridas para abrigar a obra estão o futuro Centro Cultural “Salles Dounner”, ainda em fase de projeto, ou a Pinacoteca Municipal, instalada na Casa da Cultura do Artista Francano.
Quem foi Salles Dounner
Pedro Paulo Salles nasceu em São Paulo, em 1º de julho de 1949, mas construiu sua trajetória artística em Franca. Autodidata e de personalidade inquieta, realizou sua primeira exposição aos 18 anos. Entre suas mostras individuais destacam-se exposições na Pinacoteca Municipal e na Galeria de Arte do Senac, além do lançamento do livro “Art-Nula”, com ilustrações e cartuns.
Sua produção era marcada pelo uso de lápis comum, bico de pena e nanquim, muitas vezes sobre papéis simples, como embrulhos de pão e jornais. Retratou com intensidade os marginalizados: mendigos, crianças de rua, mulheres exploradas e animais abandonados, figuras que compõem uma estética crua e profundamente social.
Doente, mudou-se para Ribeirão Preto, onde faleceu em 18 de agosto de 1996. É reconhecido como um dos mais importantes artistas plásticos da história de Franca.

O novo mistério
Se antes a polêmica girava em torno do armazenamento inadequado da obra, agora o cenário é ainda mais preocupante. Após a conclusão da reforma da Câmara Municipal, durante a gestão do então presidente Daniel Bassi, a obra simplesmente desapareceu.
Artistas relatam que, ao retornarem ao plenário após a reabertura do prédio, constataram que “The End” não estava mais no local e tampouco foi oficialmente apresentada em outro espaço público. Até o momento, não há informação clara e transparente sobre onde a tela se encontra, em que condições está armazenada ou qual será seu destino.
O caso reacende o debate sobre a preservação do patrimônio cultural em Franca, a responsabilidade do poder público na guarda de bens artísticos e a necessidade de maior transparência administrativa.
Para muitos, o título da obra parece ganhar contornos simbólicos diante da situação: “The End” o fim não apenas como expressão artística, mas como metáfora do abandono cultural que parte da classe artística denuncia na cidade.
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