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    Início » Capitalismo de vigilância
    Humanarte

    Capitalismo de vigilância

    Cairo StillBy Cairo Still23 de fevereiro de 2025Updated:1 de junho de 2025
    Beppe Giacobbe

    A Tools for Humanity – TFH, empresa responsável pelo projeto World ID, foi recentemente alvo de atuação da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) que determinou a imediata paralisação da coleta de dados biométricos de cidadãos, como a sua íris, entendendo que tal violaria a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), visto que o consentimento dado para essa coleta era incentivado por meio financeiro, abusando da potencial vulnerabilidade e hipossuficiência das pessoas.

    Em resumo, a empresa coletava a íris humana em bancos de dados massivos que seriam utilizados para a construção de uma “identidade global”, sem indicar especificamente como faria isto, com qual intenção e objetivo e as balizas éticas deste projeto.

    Este é só mais um viés da imersão em que vivemos nos quais nossos dados são massivamente coletados por grandes empresas de tecnologia, seja ao navegar na internet, fazendo uma busca, seja ao interagir com inteligências artificiais e ao termos momentos de lazer com jogos pelo celular.

    Na sequência, somos constantemente bombardeados por serviços ou produtos ligados às nossas pesquisas, às nossas preferências e ao nosso modo de vida. Tudo parece muito normal, mas é preciso cautela diante da nossa perda de autonomia e liberdade, diante de uma tecnologia crescente e controlada por grandes e específicas empresas.

    Vivemos no que Shoshana Zuboff denominou de capitalismo de vigilância, uma era em que a lógica econômica transforma a experiência humana em matéria-prima para práticas comerciais de extração, tratamento, predição e venda de dados.

    Nesse modelo de capitalismo as empresas de tecnologia coletam e analisam de forma massiva, dados gerados pelos usuários durante suas interações online e offline, com claro intuito de prever e influenciar comportamentos futuros, afetando as decisões dos indivíduos, como forma de retirar deles os direitos humanos mais basilares como a autonomia e a liberdade.

    A série da Apple TV que ganhou recentemente uma nova temporada, Ruptura, do diretor Ben Stiller ocupa-se de demonstrar uma situação na qual funcionários de uma determinada corporação são submetidos a um procedimento cirúrgico que divide suas memórias em vida profissional e pessoal, sendo que estas não se comunicam.

    Enquanto estão no trabalho, eles são apenas as memórias profissionais e anulam-se em suas memórias afetivas e pessoais, construídas extramuros das suas estações de trabalho.

    Ruptura nos faz pensar o quanto a tecnologia e o capitalismo a ela atrelado podem influenciar negativamente nossas próprias vidas, a ponto de determinar o que pensamos, o que queremos e o que nos propomos enquanto seres sencientes e conscientes.

    É através dessa vigilância exacerbada exercida pelo capitalismo de tecnologia que afundamos nossas visões a estilos e modos de pensar e viver que agradem a determinadas companhias, determinando até mesmo nossas predileções sobre governos e modos de vida, mais ou menos adequados às tendências que são criadas pelas grandes corporações.

    Do mesmo modo, Ferreira Gullar nos lembra em seu poema “Homem comum” da nossa constante busca por identificação, sendo resultado das experiências vividas através de memórias e esquecimentos, além de inquietações humanas e que a todos nos congrega:

    Sou um homem comum
           de carne e de memória
           de osso e esquecimento.
           Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião
    e a vida sopra dentro de mim
           pânica
           feito a chama de um maçarico
    e pode
    subitamente
           cessar.
    Sou como você
           feito de coisas lembradas
           e esquecidas
                rostos e
                mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia
                em Pastos-Bons,
                defuntas alegrias flores passarinhos
                facho de tarde luminosa
                nomes que já nem sei (…)

    E Gullar não foge ao que em sua época era a face do imperialismo, como o Chase Bank, a IT & T, a Anderson Clayton e “sabe-se lá quantos outros braços do polo a nos sugar a vida e a bolsa”. É a memória de um poeta que vivia, à sua época, as mesmas angústias que hoje vivemos na busca da nossa identidade.

    E esta busca continua tão incessante que gera projetos como esse de uma “identidade global”, que pode muito em breve ser alcançada pois o homem está a se moldar conforme os algoritmos lhe impõem ver, ouvir e falar.

    Talvez sejamos muito pretensiosos, mas esta coluna se agrega a nos fazer repensar, pelas artes em geral, os novos paradigmas que diariamente se colocam a nossa frente, urgindo firmar bases na expansão de consciência promovida pelas artes.

    Enquanto somos vigiados, é importante termos espaço para fazer contrapontos, para insurgirmos em face dessa esbórnia tecnológica. E aqui, caro leitor, sinta-se em casa para isto.

    Com especial dedicação, a coluna desta semana é uma provocação trazida pelo nosso leitor Gabriel Leme, a quem rendemos as honras pela usual leitura e prestígio de nossas HUMANARTES.

    PARA VER: Ruptura (2022/2024, Ben Stiller, na Apple TV)

    PARA OUVIR: Bogotá, Criolo e Emicida, álbum Nó na Orelha, 2011– “Fique atento, irmão! Vamos embora pra Bogotá, muambar, muambei“

    PARA LER: Dentro da noite veloz (Ferreira Gullar, Companhia das Letras, 2018 – 1ª edição em 1975)

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    capitalismo Cultura dados inteligência artificial tecnologia vigilância

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